quarta-feira, 2 de setembro de 2009

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Minha Mãe me ensinou muita coisa. Aliás, não, não é assim. Eu é que aprendi muita coisa com ela. Ensinar, na maior parte dos casos, é um verbo figurativo. Não há realmente ensino; há repetição e aprendizado. Mas, enfim, eu aprendi muita coisa com a minha Mãe.
Aprendi, por exemplo, que não dá pra ser ateu; que é preciso curtir o sol; que, uma hora ou outra, você vai ter que tomar um partido e que "liberdade é saber dizer não". E aprendi até coisas um tanto menos importantes, por exemplo, certas artes - que nem ela domina muito bem - do tipo respeitar-se e não se arrastar. Ou ainda se esforçar pra encontrar a motivação do dia, se preciso, até num saquinho de bexigas coloridas. Nós duas dominamos o conteúdo teórico dessas desimportâncias até que bem, mas a prática leva irremediavelmente à fossa-sofá.

Anyway. Amanhã, a minha grande fonte de aprendizados e força completa 50 anos de idade. Já tenho as piadinhas prontas, o presente também. Só não tenho o bolo, porque ela quer manter a forma.
E a boa verdade é que eu não sei o que é ter uma Mãe mais velha que eu. Ela não aparenta a idade que tem... E a energia é a mesma de uma menininha louca por barbies, que, ok, não enxerga muito bem.
Há algum tempo, lembro de ter perguntado a ela quando foi que a Vó envelheceu. Ela me disse que foi de uma hora para outra. E eu, secretamente, fico tentando me preparar para o dia em que for a minha vez de sacar que Mamãe ficou velhinha.
De certa maneira, num processo bem lento, mais acentuado em determinados dias, eu tenho assistido: vez em quando, as marcas sobressaem, ela reclama dos joelhos, das costas, da vista e eu vejo as raízes grisalhas, que ela se apressa em pintar de roxo avermelhado.
Sabe, ela não gosta nadinha de ver o tempo. De certa forma, ela também se assiste, só que de outro ângulo... Eu pergunto e ela explica que é como se você ainda fosse jovem, mas dentro de um corpo que não acompanha mais o seu ritmo e as suas expectativas para o futuro.
Penso que isso deve ser um daqueles grandes aprendizados, que você nunca termina de aprender e carrega não se sabe pra onde. Um aprendizado filho da puta, diga-se de passagem.
É que, veja bem, eu não sei como é não me sentir meio louca e cheia de energia e sexy e entupida de possibilidades para o futuro e, de alguma forma, absolutamente crente no tempo que eu tenho pra estabelecer e desfazer todos os laços do mundo. E, principalmente, não sei como é não ter um corpo que me acompanhe.

Todo mundo se torna o que é quando é jovem. E a não ser que você desenvolva alguma doença degenerativa, é na pele de um jovem que você se projetaria se o mundo não tivesse espelhos. E se não tivesse essas dores esquisitas nos joelhos gastos.
Mamãe reclama.

Caraca. Se a velhice foi inventada por alguém, então esse alguém era muito sádico.