quinta-feira, 15 de novembro de 2007

:0} expectations

Bem, bem, bem, bem, bem... O Davi vai prestar FAU e Mackenzie. Todo mundo tá achando - com uma fé, assim, terrível *-* - que ele passa no Mackenzie, mesmo não estudando. Ele quer Design. Andei falando com uns amigos, e eles me disseram que em Design tá cheio de gay. O Davi não sabe disso ainda.
Anyway, hoje eu começo a novena. Liguei ontem no desespero, à 1h da manhã, pra minha Tia pra perguntar a que santo eu me apego. Ela disse que era melhor eu me apegar a =0D todos. Mas deu que vou me apegar a Santo Expedito, a Santa Rita, de quem minha Vó é devota, e a São Judas Tadeu, pelo meu Vô.
Penso que isso é ser sacana com os céus, uma vez que eu só busco esse tipo de ajuda quando a situação tá a ponto de bala aqui na Terra. Mas, se der certo, garanto que cumpro a minha promessa.

sway, michael blublé

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Quem dá a resposta?

Romildo adentrou a sala. Lá, havia três portas. Três portas e uma secretária, com cara de inteligente, sentada atrás de um balcão de mármore à direita.
-- O chefe?
-- Escolha uma das portas e prossiga pelas salas subseqüentes. - disse ela, em tom sério, mas com uma carinha simpática.
Romildo não entendeu direito o sentido daquilo. Mas tudo bem, tudo bem... Afinal, as regras não eram dele.
Ele parou diante das três portas. A primeira dizia "o infinito"; a segunda dizia "a dúvida" e a terceira, por sua vez, não tinha nome algum. Pensou que a porta da dúvida estava fora de cogitação; não conhecia certezas, mas também não gostava de dúvidas.
-- O senhor não tem muito tempo para decidir. Eu preciso chamar os outros.
-- Ah, sim, sim.
Optou pela porta sem nome. Caiu numa sala escura, com um feixe de luz pairando sobre uma cadeira de madeira. Pensou "é, acho que é só esperar, né?". E esperou. Esperou. Esperou pacientemente durante 40 minutos. Nada. Decidiu voltar e dizer à secretária que havia cometido um engano, que talvez aquela não fosse a porta; que o chefe deveria estar em uma das duas outras salas.
Quando abriu a porta pela qual havia entrado, caiu não naquela primeira sala, mas no que parecia ser uma garagem. Havia lá dois carros. Havia também algumas ferramentas espalhadas, duas bicicletas a um canto e uma bola de futebol na qual Romildo tropeçou. Assim que levantou, viu uma menininha passar e correr em direção à bola. Ele teve medo por um instante, mas percebeu que ela não o via. Ficou doido de vontade de ver se ela, além de não vê-lo, conseguia atravessá-lo, mas achou que seria uma "forçação" de barra um tanto quanto desnecessária. Por isso tentou ele próprio atravessar as paredes. CATAPLOFT! "Mas que saco!". E calou-se de supetão, pois não sabia se ela podia ouvi-lo. Só que não, também não o escutava.
Ela ficara segurando a bola durante alguns instantes, e ele não entendeu. Ficou espiando e percebeu que ela começava a chorar, encolhida. De dentro da casa, vinha um som de vozes nervosas; não dava pra entender o que diziam, mas não ficava difícil saber que se tratava duma briga. Romildo atentou para a menina, que encolhia mais, pondo-se ao lado das bicicletas. Foi quando uma das vozes ficou realmente alta, como se estivesse vindo de encontro a ele: "seu babaca! A Mimi vem comigo!".
A menina levantou a cabeça, ainda com os olhos turvos, e viu a mãe aproximar-se e pegá-la no colo no impulso. "E o papai, e o papai?!", ela perguntava, mas a mãe se limitava a responder "ele não vem com a gente, ele não vem!". Romildo observava aquilo atônito. Ouviu o pai berrar de algum dos cômodos, e resolveu entrar pra ver por que não vinha. A casa era espaçosa: sala grande, sofá de quatro lugares, uma cozinha de azulejos verdes e móveis mais antigos. Mas, como não visse ninguém, decidiu invadir mais. Em um dos quartos, finalmente, viu um homem numa cadeira de rodas, chorando.

Edileuza entrou na sala. Viu lá as três portas e a secretária, toda toda, parecia que ía pr'um baile funk. Pensou que aquilo ali não devia ser lugar pra tanta frescura e que "o chefe" comia ela toda a noite, de sobremesa.
-- Dá licença, eu queria falar co' chefe.
-- Escolhe uma das portas ali. Ah, e, por favor, sem chiclete, tá? - respondeu a secretária, com um sorriso sarcástico.
Sem muita paciência, escolheu a porta do nome bonito: "o infinito" e deu no que parecia ser um banheiro de boate, com espelhos manchados. "Aquela vaca deve tá rindo agora; ha-ha-ha-ha, quem foi que entrou no banheiro?! Ah, mas isso fica assim não!". E abriu a porta, esperando encontrar a secretária se matando de rir. Porém acabou num quarto de motel. Na beirada da cama, tinha uma mulher semi nua, acendendo um cigarro. Do lado, recostado, um homem uns 10 anos mais velho contando notas na carteira. Ele atirou as notas ao lado dela, na cama, e acariciou sua carne morena uma última vez. "Bom, querido, 'cê tem meu celular", disse ela. "Da próxima vez, quero te levar pra jantar, Silvana.".
Edileuza seguiu Silvana. Não ía ficar no quarto com aquele porco. Logo reparou que Silvana não podia vê-la. "Tu não tá com a cara boa." - comentou Edileuza, em vão. Silvana não ouvia não. "Deve ser alguma pegadinha isso aqui (...) Esse cigarro tá te deixando chupada... Sabe, eu também fumava bastante. Mas dei uma segurada; o cunhado de uma amiga minha morreu por causa que fumava muito. (...) Então tu é puta, né? É, vai entender, essa vida não é fácil não. Mulher é bicho forte, é sempre dura na queda. (...) Mas afinal 'cê tá com uma cara xoxa. 'Margura, parece 'margura que não acaba mais.".

Edileuza falava e seguia Silvana. Silvana tava indo pr'o ponto; alguma esquina onde tinham mais duas colegas. Silvana jogou o cigarro fora e chegou rebolando junto dum carro preto que se aproximava. O esquema era dois pra uma. Edileuza ficou olhando de longe, enquanto alertava "cuidado! Olha lá! Esses aí não tão com cara tão boa! Quando é mais de um, esse ar de esperto, desconfia! Silvana!"; percebeu que Silvana não tava muito em si quando topou, e resolveu ir com ela. Entrou no carro, mas era como se não estivesse lá.
O carro seguiu para um motel de quinta. No quarto, Edileuza, como bem tinha imaginado, viu que os dois tinham armado pra cima de Silvana. Usaram clorofórmio; Edileuza gritava, empurrava os garotos, chutava, mas nada pegava neles. Ela gritava "isso aqui é alguma brincadeira?! É alguma brincadeira?!". Até que, terminado o negócio, eles foram embora e deixaram Silvana machucada, desacordada no quarto. Edileuza não teve muito que fazer, senão ficar por perto.
Sussurrava pra ver se ela despertava, mas nada. Teria que esperar. Esperou. Esperou. Esperou pacientemente durante uns 35 minutos, até que Silvana levantou. Tudo rodava, seu lábio tinha gosto de sangue e seu olho direito não abria certo. A cabeça latejava; por entre as coxas dava pra sentir o molhado repugnante e ela sentia as pernas doídas pra fora da cama.
Levantou aos poucos, com raiva, toda zonza. Tinha vontade de chorar, mas não conseguia. Onde é que estava a porra do cigarro? Não, não. Não era hora pra fumar. Edileuza acompanhava a mulher com medo; queria dizer alguma coisa. Silvana caminhou lentamente para a janela. Era uma janela grande, daquelas mais antigas, mas espaçosa o suficiente para fazer o que tinha que fazer. Edileuza notou aquele olhar cego de Silvana; Silvana abrira a janela bem aberta e, com dificuldade, punha perna depois de perna pra sentar no peitoril. Não precisava de muita coragem. Edileuza começou a falar assustada "não faz isso não mulher! Faz isso não! Pára!!! PÁRA!!! Silvana!!!" - e Silvana olhou pra trás como quem ouviu.

Dudu desceu as escadas correndo, não quis esperar o elevador. Tinha as flores nas mãos, o perdão ensaiado. Marília tinha engravidado e ele ficara meio puto. Coisa não planejada; os dois empregados, porém no início da carreira ainda. Ela nem bem terminara a faculdade.
Ah, tudo bem, isso se ajeita, ele dizia. Estava com um cargo promissor. Se destacava nos cursos, cuidava do social, tinha tudo para montar um bom futuro e conseguir prover pr'um filho todo conforto possível. Mas, no momento... A coisa toda ameaçava desequilibrar.
Marília e ele haviam se conhecido numa festa, há uns três anos. Amigos em comum, baladinhas aqui e ali, conversas à toa, conversas mais intimistas; um dia a coisa rolou. E, ao contrário do que se pensava, eles até que estavam se aturando bem. Tinham planos, mais parecidos com idéias, é certo, mas ainda assim maquinavam morar juntos: acordar com os cabelos de um na cara do outro; ver quem atingiria o ápice do mau humor com as manias alheias, essas coisas de casal que se conhece, se adora, contudo não se atura por muito tempo quando colado.
"-- Sabe Marília, a verdade é que eu não planejei a minha vida ao teu lado. O que a gente vai fazer com um filho?!". Eram palavras duras; ele bem sabia que um punhado de flores não resolveria o problema. Ademais, arrependido ou não, ele dizia a verdade.
Atravessara o lobby com pressa. O paletó numa mão, as flores na outra. Não queria ter tempo pra pensar.

Corria muito, como se aquilo pudesse aliviar um pouco a ansiedade. Até esbarrar numa velhinha que lhe disse, após ouvir os insinceros pedidos de desculpas, "cuidado, garoto, desse jeito louco 'cê ainda é atropelado". Ele deu ouvidos e cessou a correria; caminhava agora, ironicamente pensando que tão logo fora-lhe dada a notícia de que seria pai, tão mais cedo ele corria para a morte sem poder. É... O Dudu já estava preso.
Foi quando ele resolveu sentar num dos bancos de uma praça, pra pensar direito. Encostado a um dos cantos do banco, havia esse cadeirante fumando. Ele fumava a intermináveis tragadas e tinha a cara vazia. Do outro lado, sentada, estava Silvana vestindo roupas insinuantes.
"Nada melhor do que meditar e encontrar a paz interior dividindo um banco com um aleijado e uma puta." - pensara. A verdade é que Dudu era um idiota e sabia disso. Tanto sabia que fazia de propósito, pelo prazer de provocar - aos outros e a si próprio.
-- Eu acho muito desumano compartilhar banco de praça com outras pessoas, sem saber o nome delas. Meu nome é Eduardo. E o seu, senhorita?
-- Edileuza.
-- Hm, Edileuza. E a senhorita trabalha em quê?
-- Por um acaso isso é problema seu?
-- Digamos que pode ser do meu interesse...
Ela simplesmente levantou e foi embora. Havia marcado com um cliente das antigas. Só que ainda era cedo. Mas não fazia mal esperar em outro lugar.
-- E o senhor, como se chama?
-- Romildo.
-- Faz o quê?
-- Faço porra nenhuma.
-- Soa produtivo.
-- Muito. Já ouviu falar em ócio produtivo de alto nível?
-- Não mesmo.
-- Pois é. Pratico há 3 anos, desde que me instalaram nessa cadeira.
-- Ao menos tá vivo.
-- À merda.
Romildo também foi embora e Dudu pôde desfrutar da solidão. Ele não pensou muito, apenas deixou as flores no banco e foi embora após uns 30 minutos. Caminhava normalmente, sem ligar pra muita coisa, até perceber uma placa, em frente a um estabelecimento parecido com uma loja, só que de vitrines vazias e porta preta, que dizia "quer a resposta?". Ele resolveu entrar.
Chegou no único atendente que havia, um menino de uns 17 anos trajando uma bermuda branca, e falou "eu quero a resposta".
-- Pra isso tem que falar com o chefe. Tá vendo aquele corredor? Segue por ele e vira na segunda à direita, depois na primeira à esquerda e então na segunda à direita novamente. É uma sala de espera; vão te chamar.

Ele foi sem grandes pretensões. Chamaram até que rápido. Quando adentrou a sala, viu a secretária à direita. E ela tinha um nariz de palhaço, daqueles vermelhos e bem redondos. Ele ignorou o fato e tentou ater-se ao que realmente interessava.
-- Por favor, eu queria falar com o chefe.
-- Escolha uma das três portas adiante.
-- Tá de palhaçada comigo, né?
Ela não precisava responder à pergunta.
Ele escolheu a porta da dúvida, afinal era por isso que estava ali. Além disso, achava o infinito uma coisa cretina e uma porta sem nome, algo provavelmente desinteressante.
Caiu numa calçada que dava de frente para o banco onde estivera. E, qual não fora sua tão grande surpresa, lá estava ele ao lado do aleijado e da puta. Vira toda a cena, desde o momento em que sentara, as conversas desagradáveis até aquele impulso que o fez levantar pronto pra tomar seu rumo sem as flores. Neste exato momento, Dudu, da calçada, começou a gritar "não faz isso, seu merda! Pega as flores agora! Pega as flores!!! É a tua menina e o teu filho!!! São teus! Pega as flores, AGORA!!!".

Edileuza deixou o quarto. Entrou no elevador; encarou o espelho manchado: "tu não tá com a cara boa. Deve ser alguma pegadinha isso aqui (...) Esse cigarro tá te deixando chupada... Precisa dar uma segurada; o cunhado da Roberta morreu por causa que fumava muito. (...) Então é isso que tu vai ser pra vida toda, né? Puta? Essa vida não é fácil não. Como é que eu fui chegar nisso? 'Cê não pode mais. (...) Mulher é bicho forte, é sempre dura na queda. (...) Mas afinal 'cê tá com uma cara xoxa. Margura, parece margura que não acaba mais...".
Edileuza seguia pr'o ponto; pensava milhares de coisas. Imaginava uma vida diferente daquela; precisava parar com aquilo. Foi para a esquina onde tinham mais duas colegas. Edileuza assumiu Silvana, jogou o cigarro fora e chegou rebolando junto dum carro preto que se aproximava. O esquema era dois pra uma. Silvana se exibia, enquanto observava os garotos e algo a alertava "cuidado! Olha lá! Esses aí não tão com cara tão boa! Quando é mais de um, esse ar de esperto, desconfia! (...)". Apesar de tudo, Silvana estava prestes a concordar quando olhou pra trás pensando ter ouvido alguém chamar-lhe "(...) PÁRA!!! Silvana!!!" e foi então que, de seus lábios tristes, surgiu a resposta para o convite indecente:
-- Hoje não, rapazes. Hoje não.
Uma das meninas virou pra ela e disse:
-- Edileuza, tá lôca?!
-- Eu que não. Quando alguma coisa dentro da cabeça grita mais que o normal, tu tem que parar pra ouvir. E, se eu fosse você, também não dava trela pra esses caras aí não.

Romildo adorava o mar: era um biólogo especializado em vida marinha. Um dia, porém, decidiu mergulhar próximo às pedras, na praia em que ele, a esposa, a filha e a família costumavam passar as férias. O mar estava agitado e ele encontrava-se já um pouco alto, por conta da cerveja; foi quando uma onda forte o jogou contra as pedras e acabou fraturando sua medula. Essas mesmas ondas, acabaram por levá-lo até a praia, desacordado. Desde então, Romildo ficara enfiado numa cadeira de rodas.
A mulher e ele não se davam muito bem, mas levavam o casamento adiante por causa da Mimi. Só que depois do acidente, o que já não era muito suportável, passou à qualidade de intrinsecamente detestável. Romildo era o típico cara mais parado; levava murro de graça, sem se importar muito. A única coisa que o movia de verdade era a filha. A filha e o mar, só que o mar já não era uma constante em sua vida. A mulher lhe torrava a paciência, especialmente agora que ele passava o tempo em casa, desmotivado e inútil. Ele até tentou se bastar como coordenador de pesquisas e tal, mas não aguentou. Sentia muita falta do mar e o seu serviço começou a decair. Tanto decaiu, que Romildo foi despedido. Essa falta de responsabilidade perante a família que o marido também tinha o dever de sustentar e, principalmente, a autopiedade dele irritavam-na profundamente. E ele via isso. Tanto via que, conforme o tempo foi passando, já não lhe era suficiente ficar em casa cuidando da filha, pois aquela sensação de inutilidade e comodismo, frente o olhar reprovador da mulher, começava a incomodá-lo.
A solução imediata que ele achou pra isso foi a ausência. Passava o dia fora; nem cuidar da filha ele fazia mais. Procurava emprego aqui e ali, pra fazer coisas das quais ele nem entendia. Era só pra dizer que procurava e ouvir menos da mulher.
Veio então o dia em que ele foi ao cinema. Passava um filme sobre teatro, com a Denise Fraga e o Luís Melo. No filme, todo o dia a Denise Fraga cumprimentava esse velho sentado numa cadeira com um radinho na mão, na entrada do teatro, e ele respondia "obrigado". Uma merda de filme, enfim.
Foi então que, naquela noite, em casa, Romildo decidiu que queria ficar sozinho de vez. Ele e a mulher brigaram; ela saiu de casa com a Mimi. Um Romildo surgiu à porta do que reconheceu ser seu próprio quarto; flagrou a si mesmo como aquele homem na cadeira de rodas chorando, e disse "é a minha vida e eu preciso pegá-la...".
Olhou em volta, agora enxugando as lágrimas. Sentia-se estranhamente leve.

Dudu levantou bruscamente. Estava suado, respirando rápido; a seu lado, Marília, assustada, perguntava "que foi?! Tá tudo bem, Du?". Na cômoda, as flores que ele trouxera para ela, ao lado do seu paletó abarrotado por causa da corrida.
-- Tá... Tá sim. Eu te amo, Ma.
Ela o abraçou bem forte e os dois voltaram a deitar. Marília pegou no sono rápido; Dudu ficou com Ma nos braços, porém desperto, observando cada canto do pequeno quarto com relativa calma.


Dudu, Romildo e Edileuza jamais se encontraram. A dúvida, o infinito e a porta sem nome são a mesma coisa. O chefe é o cara das respostas fáceis, a quem todo mundo procura, ou por quem todo mundo anseia de vez em sempre. Se o Dudu, o Romildo e a Edileuza o encontraram, eu prefiro deixar a encargo do leitor decidir.

É a loucura, o destino, deus, o diabo, um pressentimento, um anjo, um presságio, a sorte, o chefe? A gente nunca sabe... A gente só sabe que, em questão de 5 minutos, o mundo já girou um tantão assim ó.

vivir sin aire, maná

música para os ouvidos

Quando eu tô bem, bem, beeeem triste, eu gosto de ouvir um samba ou Mamonas pra animar. Quando eu tô com muita raiva, escuto Nirvana. Quando tô ansiosa, escuto Sum 41. Quando chove, escuto Jamie Cullum, Dave Brubeck, Nina Simone, mais cool jazz. Quando quero dançar brincando de desfile, roda Shakira e Pink. Quando não tô muito nada, nem muito tudo, escuto Damien Rice sem risco de enjoar.
Quando é fim de semana à tarde, frio, escuto o 4 do Los Hermanos ou Norah Jones. Quando é fim de semana à tarde, quente, escuto o que tiver no meu pc de bom. E quando faz sol de manhã, é música de praia: Jack Johnson.
Quando é na semana, de manhã eu levo música no iPod que todo mundo no cursinho curta ouvir - menos funk carioca. Funk carioca eu não levo e não canto em lugar algum. Só danço. Quando é na semana, de tarde, eu rodo o que tiver no pc e, quando os exercícios de física e história não cooperam
(é incrível como a gente sabe a matéria, mas erra um monte!), dou preferência às cordas. Vai B. B. King, Dashboard Confessional, Ben Harper, Django Reinhardt, Rachel Portman, Yann Tiersen, Rita Lee, Ryan Adams, Bebel Gilberto, Toquinho, Enya, Luís Melodia etc. À noite, que é quando dá pra pensar, mais Damien Rice, Oasis, Stereophonics, Skank, Ocean Colour Scene, Legião, Coldplay, Bidê Ou Balde e segue...
Quando quero lembrar de pessoas e até de mim mesma, escuto Avril Lavigne. Quando quero pensar besteira, escuto um cd que eu gravei que se chama "pra pensar em sexo"; na real, real mesmo, era pra se chamar "código 69: pra trepar", mas Mamãe achou o título meio inconveniente. Gostou, mas ainda assim achou meio inconveniente, então a gente teve que fazer uma adaptação.

E quando eu crescer, quero ser DJ nas festas dos nossos pais.

minor swing, django reinhardt [é a física... tudo culpa da física u.ú]

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

os efeitos da radiação de cozinha.

Tava pensando aqui comigo... Se eu deixar a salsicha ferver no microondas, ela pode sofrer mutação? O.o' Hm.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

da liberdade ou sobre como ele começara a esperar

a liberdade precisa de muitos significados para que nos sintamos senhores de nós mesmos. ele bem o sabia quando a olhou naquele 28 de novembro e se apaixonou... até então, era um homem sem álibis quaisquer, sem grandes dúvidas e opiniões. dono de uma pequena mercearia situada numa dessas ruelas movimentadas de Pinheiros, levava uma vida pacata, de pretensões modestas. era um acomodado e desfrutava da independência que o negócio lhe proporcionava.
foi a vez de alguma coisa o incomodar. como quando tudo na vida está ajeitado ao aceitável e cai o destino, despenca a sorte, gira o mundo, só porque deus não quer ficar entediado com as vidas que distribuiu.
manhã ensolarada; o único empregado chegara atrasado por causa de mulher, mas ele não fez muito caso, afinal Maneco [o ajudante] era um cara con
fiável, disposto, que entendia do serviço e o divertia com suas lorotas. passaram a manhã conferindo estoque, endireitando a loja para os primeiros fregueses do que seria uma quinta-feira de pouco movimento.
até que ela entrou. e, apesar de ser uma freguesa dessas que aparecem uma vez a cada duas semanas, por aí, desta vez ela tinha algo que a fazia mais bonita. quem dera fosse o vestido amarelo, que, longe de enfatizar as formas, conferia-lhe um ar um tanto mais infantil, ou aquela parte do cabelo que caía-lhe bem no rosto gritando sensualidade, ou ainda o jeito como segurava a sacola das compras feitas denunciando cansaço. quem dera fossem estes detalhes tingidos com perfeição pelo que se chama cotidiano. ele se admirou foi da leveza dos passos, aquele jeito alegre de andar com os pensamentos em outros lugares; daqueles lábios entreabertos num sorriso disfarçado e constante; dos tantos gestos, barulhinhos, confidências feitas em pensamento com aquele ar de quem ama o segredo de saber-se feliz, pois os outros, ah, os outros pouco importavam naquela hora [os outros pouco importam nessas horas]. ele notou o mistério e a facilidade com que este se dissiparia caso alguém perguntasse quais seriam os motivos daquela linda meninice, toda displicente. e isso o encantou.
ele, porém, não disse, não perguntou nada. tampouco o fez nas outras vezes em que ela passou por lá. continha-se. continha-se certo de que a beleza que enxergava, a pureza com que a admirava e a certeza com que um dia, se assim continuasse, viria a amá-la fariam perdurar esta sensação de encanto
por muito tempo ainda.

eis que chega o dia em que a moça não vai só à mercearia. e o Maneco, como de costume, atende a senhoria que se exibe ao lado de seu motivo. ele engole em seco e repara no sorriso aberto, nos gestos, barulhinhos, nas confidências a mais, todas entregues. agora não há mais mistério e a felicidade dela já não é segredo. ele devia saber: pessoas felizes não conseguem fazer segredo de sua felicidade, ao menos não por muito tempo. elas precisam deixar saber que estão felizes, como se fosse
m, por algum motivo, superiores, diferentes, quando não o são. estão apenas alegres e sentem-se contagiantes.
pairou sobre ele um sentimentozinho pequeno, podre de caráter, não tão baixo quanto a inveja, mas no caminho para tal. ficou de comparações com aquele que há pouco esteve ali, com ela. o que ele tem de mais? algum dinheiro, um carro bom, palavras bonitas e vaidades? ah, é bem pouco perto do que eu vi. é bem pouco perto do que eu vi!


no dia seguinte, ele andava inquieto de lá para cá. não tinha dormido à noite e não dizia a Maneco o que se passava. passada uma semana, a inquietação havia desaparecido, mas este incômodo pesava-lhe nos momentos de pouco movimento. ele imaginava coisas; imaginava agora a outra beleza, aquela que a fazia mulher, na carne e no espírito; não mais com a sensualidade inocente de outrora, mas com a de quem sabe jogar. foram três semanas inteiras e ela não voltara à mercearia. ele decidiu contar ao Maneco.
-- Pois eu acho que pr'o patrão foi muito cômodo.

-- 'Cê não entende.
-- Entendo que o que o senhor sente agora é um ciúme inútil.

-- Não é ciúme! Eu não sentia ciúme antes, por que ía sentir agora?!
-- Porque o senhor foi roubado! E o senhor viu o ladrão! E o ladrão tinha a mão na cintura da moça, sussurrava no ouvido dela e isso te deixou louco.
-- 'Cê não entende porra nenhuma.

-- Entendo o que é querer alguma coisa e entendo dos meios pra conseguir. Pra mim, este jogo de distância e "ter-em-que-pensar" não funciona. É babaquice pra desocupado.
-- Oras, vai à merda.
Maneco jamais entenderia. Maneco era daquele tipo de gente imediatista, pra quem tudo é passível de solução e métodos. Ele não. Não queria correr o risco de ter sido iludido, mas também, talvez devido às circunstâncias, tampouco queria que ela passasse mais uma vez sem que fossem trocadas palavras entre eles, sem que se desse margem a outros tipos de conhecimentos, acordos e modos.
Maneco e ele nunca mais tocaram no assunto. E a
gora ele esperava pacientemente pela próxima chance. uma semana depois, a chance apareceu e ele se mostrou cavalheiríssimo, cheio dos bem falares perto dela.
-- A moça anda muito bonita ultimamente, com um sorriso alegre, cheia de vida.
-- Ah, muito obrigada - disse ruborizando.
-- Não se envergonhe não. Se todo mundo fosse assim sempre, ou pelo menos quase sempre, garanto que o dia-a-dia desse povo seria muito mais agradável.
-- Concordo com o senhor.
-- Mas, se me permite a pergunta, como é que a gente faz pra ficar assim que nem a senhorinha?

-- A gente, eu pelo menos, não faz nada. É que eu fui encontrada e acabei por me encontrar.
-- Hm, fala bonito a moça, mas com muito mistério...
-- Estou enamorada... De um que é lindo por dentro e por fora, e me completa como alma alguma jamais conseguiu.

-- Hm. - o rosto dele tomou um sorriso apagado.
ordenados os pedidos, ela foi embora e ele não se conformou com tamanha impossibilidade. deu meia hora, saiu apressado, sentia que o ar dentro da mercearia estava viciado; não avisou o Maneco, mas pouco importava, pois o Maneco sempre sabia o que fazer.
toda aquela pureza sumira, a beleza que agora enxergava er
a a do desejo insatisfeito, daquela meia-fúria de quem olha e não pode tocar; por todas as canções sussurradas que jamais pronunciaria. era insensato demais e ele o sabia... ela simplesmente passara um dia e, agora, lá estava ele com ares de desconcertado, quase imensamente triste. perguntava-se por que as pessoas não podiam parecer belas por outros motivos que não outras pessoas. e não encontrava resposta, pois não conhecia a sensação... no entanto, a observava. a observava incessantemente nos outros! por um momento, pensou que sentisse inveja, mas não, não era. o que tinha era apenas uma vontade que há muito não lhe fisgava o peito; uma vontade de ficar alegre, conversar, falar do seu vazio para alguém que o preenchesse. mesmo que isso significasse abandonar parte da beleza, sufocar o que conservava-se puro, tudo para conquistar a liberdade de amar de outro modo.
Maneco tinha certa razão: ele bem era um acomodado. mas acomodou-se, pois nunca teve a q
ue aspirar com paixão. era uma dessas pessoas que se tornavam inatingíveis, por não terem a que almejar, a quem a vida veio como qualquer outra, porém com meios de estabilidade... não que fosse um conformado; vivia simplesmente, do jeito que desse, do jeito que viesse e, no momento, as coisas vinham bem: seu próprio negócio, um dinheirinho extra ao final do mês, freguesia constante, sem nenhuma queixa quase. a pelota das quartas-feiras, as conversas com o Maneco, as discussões no bar, a solidão, sua melhor companheira. uma companheira que só o incomodava nos dias frios, quando fechava a mercearia sabendo que o Maneco haveria de se arranjar nos abraços de alguém e ele voltaria pra casa e passaria a noite lendo, ouvindo o velho rádio, tomando uma caneca de leite quente.
as mulheres pra ele constituíam um prazer carnal, há muito substituído pelo futebol e pela cerveja. quando mais jovem, ele até se aventurava mais nesse campo. gostava do toque da pele macia de uma boa mulher; gostava do tom da voz, de como os lábios se preparavam para o beijo, de como os abraços o envolviam com segurança e medo e de como faziam da cama um lugar quentinho; eram ternas, diferentes, fortes de tantas maneiras.

tivera três mulheres com quem os casos foram - e poderiam ter sido mais - duradouros. todos eles, entretanto, conheceram um mesmo fim: ele que não as queria enganar também não podia levar adiante necessidades às quais não podia atender, pelo menos não de coração. às vezes as mulheres não dão espaço para considerações e querem ouvir logo um eu te amo, eu te quero, para que possam seguir em paz, sabendo que alguém lhes pertence tanto quanto elas desejam se entregar. não é uma arma, é mais um mecanismo de defesa, porque mulher alguma apresenta meias-palavras, apesar de dizer que sim.
muitos poderiam pensar que a vida dele era pequena. pequena de recursos, de envolvimentos, de sonhos, desejos, sentimentos. mas, no mais, era uma vida como qualquer outra. quem acha a própria vida grande, não pára pra aproveitar o que tem; quem considera a própria vida pequena, não pára pra admirar o que tem; e quem não acha nada da própria vida, é... sei não.
quando deu por si, seus passos o haviam conduzido po
r toda a Rebouças. decidiu continuar caminhando pra onde quer que fosse, e acabou por descer a Consolação. há tanto tempo não via aquele canto da cidade... quando moço, costumava sair mais, pra descobrir os arredores e lá longe. (...)
foi quando a viu, sentada com aquele, numa dessas mesinhas que ficam na calçada, tomand
o qualquer coisa naquele Bar Brahma. sentiu a raiva subir, uma raiva controlável, que mais puxava para a tristeza do que para algum tipo de violência, e resolveu aquietar-se encostado a um poste d'outro lado da rua. observava como agiam os dois, como os sorrisos denotavam cumplicidade e as mãos dela entre as dele constituíam um quadro bonito de se ver; imaginava que o quadro ficaria mais bonito se fossem as suas mãos ali... contudo, de repente, bateu uma sensação injusta de que aquilo não lhe pertencia e que, se fosse ele lá, o que agora soava como novidade, como uma pontuação desnecessária, um nó na vida, não passaria de... um dia após o outro, após o outro, após o outro... teve vergonha de si por um minuto ao torná-lo [o cotidiano] tão insosso. então parou: pensou que aquilo era uma besteira de se pensar, porque até pra ele algumas coisas tinham de ser palpáveis. e talvez ela fosse uma delas, ao menos agora que a roubavam, como diria o Maneco.
foi aí que o casal levantou e saiu. ele resolveu segui-los durante algum tempo, só pra ver como fazia. [amar, não seguir.] passeavam rumo a lugar nenhum, assim de brincadeira, e brincavam: contavam piadas, se empurravam, silenciavam, se abraçavam, discutiam... ele admirava o quadro, olhava pra ela, sentia-se incapaz, entristecia, gesticulava algumas idéias incompletas. então os dois à frente avistaram um banco e sentaram a reparar nos transeuntes. ele, ao observar aquela fotografia, pôs-se a caminhar de volta e, meio desolado, quis ter algo com que se consolar. começou a cantar baixinho:



fez-se mar, senhora, o meu penar
demora não, demora não
vai ver o acaso entregou alguém pra lhe dizer
o que qualquer dirá

parece que o amor chegou aí
parece que o amor chegou aí
eu não estava lá, mas eu vi
eu não estava lá, mas eu vi

(...)

-- Mas onde é que o senhor foi?!
-- Por quê? Não conseguiu dar conta?

-- Dar conta eu sempre dou, agora o patrão sumir assim do nada sem nem bem avisar...
fecharam a loja como sempre faziam; Maneco seguia para encontrar-se com uma guria do último fim de semana e ele seguia sozinho.
na manhã seguinte, Maneco chegou em tempo de pegar o patrão pronto pra deixar um bilhete junto às chaves da mercearia em cima da mesa do escritório.
-- Ah, Maneco... Que bom. Eu vou sumir por uns dias e tô te deixando as chaves. Não vai pensar que eu não vou voltar. Até lá, se precisar de algum ajudante, deixei um dinheiro extra pra chamar alguém, ou mesmo pegar um desses meninos que às vezes aparecem por aí pra dar uma mãozinha c'o serviço.
-- Tá bom, patrão. Mas posso saber o motivo do sumiço?
-- Pois sim... Vou procurar uma coisa.
-- E eu posso saber o que é?
-- Vou procurar a felicidade. Ontem, 'cê vê, eu me peguei pensando e pensei que a minha vida não conhece muito disso.
-- E ela a gente procura?
-- Acho que algumas pessoas precisam procurar... Outras, não.
-- E o patrão faz que tipo?
-- O que nunca procurou e se pegou querendo conhecer.
-- Espera... Isso tudo é por causa da...
-- Isso tudo não tem motivo. Tinha que acontecer e agora eu vou ver como é.
-- Ah, tá bom, então, patrão.
ele saiu e voltou com uma última pergunta.
-- Maneco, 'cê é feliz?
-- Eu sou bem-humorado pra caralho!! ;0D

e saiu de vez.
foi para o Rio de Janeiro, experimentou as pequenas e as grandes coisas: dormira na praia olhando pra lua, comprara um pacote de doces de infância, lera livros com mensagens inconcebíveis, enchera a cara com uns amigos feitos num bar qualquer, apostara, dormira com algumas mulheres, parara ocasionalmente para pensar nela e imaginar coisas mais, visitara o Corcovado e o Pão de Açúcar, roubara revistas de bancas, machucara os pés jogando bola, participara d'um protesto pelos direitos de alguma minoria populacional... mas então batia aquela saudade de casa, da mercearia, das conversas fiadas do Maneco e dela, de vê-la, mesmo que fosse acompanhada.
um dia, então, acordou com a pá virada. era uma manhã cinza, chovia muito. estava sem paciência, não sabia que mais inventar para entreter-se e começou a pensar que sua busca fora algo assim, quase em vão, não fosse pelo divertimento que agora ía fatigado e cotidiano, sem apelo por assim dizer. quis fazer algo estúpido pra ver se fugia ao marasmo daquela liberdade toda e subiu bem alto nalgum lugar visível. já pronto para ameaçar o suicídio, ouvira disparos lá embaixo e pudera avistar o que seriam dois corpos estirados na rua, conseqüências d'um assalto à mão armada, ou algo que o valha.
-- Sou mesmo um idiota - pensou. e desceu.
a verdade é que a felicidade que ele procurava havia se distanciado, fato que jamais conseguiria explicar. afinal, dá mesmo pra se sentir assim tão distante do que não se conhece? parecia ilógico, mas ele respondia que sim.
decidiu voltar pra São Paulo, a terrinha, onde, e não sabia explicar por que (coisa de paulistano, não sabe?), tinha na dura poesia concreta de suas esquinas um cantinho aconchegante.
-- Ô Maneco, voltei!!!
-- Oooo patrão! Que beleza! E como é que foi a andança?!
-- Trouxe esta camisa pra ti, é lá do Rio.
-- Ahhhh, então foi pra lá que o patrão se mandou?! Fez bem, fez muito bem. Eu teria ido pra lá também.
-- É, é uma cidade bem bonita. Mas então... Aconteceu alguma coisa na minha ausência?
-- Não patrão. Houve só umas coisas aqui na frente que fizeram a gente fechar mais cedo, só.
-- Hm. Polícia?
-- Numa das vezes, sim. Teve briga feia aqui em frente, tinha um cara armado, daí eu resolvi fechar antes de acontecer alguma outra coisa. E, na outra, teve um jogo do Brasil aí que eu não podia perder...
-- Hm. De resto, tranqüilo?
-- Tranqüilo... Ah, e o patrão conseguiu encontrar aquilo que 'tava procurando?
-- Pois é, meu caro Maneco... A verdade é que eu não sei.
-- Não sabe?!
-- Não sei.
os dias prosseguiram normais, naquela ventura de espera que não cessa no humano. o que esperasse, ele não sabia ao certo. esperava por ela? por algum poema bonito? por um telefonema bizarro? por alguma aventura repentina, daquelas dos filmes que passam na tv? pela tal felicidade, com algum significado definitivo? esperava, enfim, pelo dia seguinte, pelas companhias de quarta, pelos causos do Maneco? não saberia nunca, pois esse tipo de espera é inerente à existência e ele tampouco percebera que começava a esperar. [porque a gente não percebe quando começa; só se dá conta quando parece não terminar.]
veio então uma sexta-feira de sol e ela entrou na mercearia, dona do mesmo brilho e de uma aliança reluzente. ele ficou inquieto, mas soube disfarçar bem. queria, porém, falar-lhe de alguma maneira e, para tanto, não conteve elogios: pequenos, simples, de bom gosto. Maneco reparava na tentativa de agrado do patrão e ria baixinho, sem ser visto, por conhecer bem a figura.
que mais eu posso fazer além de elogiar e ver o sorriso? nada. não posso nada, não vou investir nada, não sou assim. é moça de outro já. me contento em vê-la vermelha, pois é o que tenho, o que temos, o que posso.
todas as vezes, ele a atendia, e todas as vezes tentava arrancar-lhe um sorriso maior, mais bonito, mais doce.
então foi a vez de ela surgir com a pá virada, numa terça-feira... porque, e isso ninguém sabe explicar direito, sempre que a gente espera alguma coisa - espera muito -, alguma fagulhinha, alguma faísca sai.
-- Bom dia, dona moça mais bonita de todas.
-- Bom dia. - ela não sorriu.
-- Hm. O de sempre?
-- O de sempre, por favor.
(...)
-- Se a moça me permite a intromissão, que é que há?
-- Ah... É a vida...
-- Hm... Gozado a moça dizer isso.
-- Ué, e por que haveria de ser gozado?
-- Oh, não, não me leve a mal. Mas é que desde que a vi, a alegria da moça me deixa triste. E agora que a moça vai triste, também eu continuo triste... Insensatez...
-- Eu lhe faço triste, meu senhor?
-- Não, não a moça em si. A moça é linda, me encanta, mas me faz lembrar da alegria que me falta e da falta que me faz não vê-la por aqui todo dia pra tê-la comigo, por perto, para a vez em que eu puder tocá-la.
Ela faz cara de quem desgostou do que ouviu.
-- Ora, mas que atrevimento!
-- Não, não, a moça não entendeu - ela se retira, sem levar nada, com sua bolsa vermelha e o nariz empinado em sinal de desaprovação - (...) eu falava da alegria...

ela não quis voltar à mercearia. ouviu o que quisera ouvir e não, nem por um minuto considerou as vicissitudes da oratória... ele quisera ter se importado mais com o fato de a moça não ter aparecido de novo, porém deu por si que ela lhe valera apenas uma liberdade com a qual ele não conseguia se comprometer: aquela que a gente vê através dos olhos dos outros.
isso o fizera esperar... e ele, que antes de ser pequeno, o era tampouco, agora é triste. simples assim.

eleanor rigby, beatles

domingo, 14 de outubro de 2007

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
E em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo pra ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...
Vinicius.

beguin the beguine, artie shaw

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

=0P É falar, discutir, debater... Infinitamente.

Há tempos não leio jornal. Ou revistas do tipo Época, Veja etc. Meu negócio agora tem sido ler Superinteressante, Galileu, O Poderoso Chefão, gibis e assistir ao Cidade Alerta, a documentários históricos - principalmente sobre a Idade Média - e ao Casos de Família. É que eu cansei, entende? Cansei do Renan Calheiros, da justiça [?], do aquecimento global, do etanol.
Sabe por quê? Porque, sinceramente, eu não dou a mínima. Quando eu era pequena e aprendia todas aquelas coisas que a gente supostamente não deve fazer, eu não fazia. Em compensação, havia coleguinha pra sujar o chão, coleguinha pra bater nos outros, coleguinha pra tirar catôuta do nariz cantando o hino nacional. Daí, quando eu cheguei na sexta série, resolvi que podia descambar também e deixei de me importar.
O país monta no pobre; o pobre não sabe disso e, se sabe, as contas não permitem que ele saiba direito; o rico enriquece, concebe grandes ou grotescos projetos, e fica mais rico, não importando o quão éticos são os meios utilizados para tanto; e a classe média... a classe média some, porque o governo bem sabe que é ótimo quando há apenas o lado pra enganar e o outro pra acompanhar no deboche. Não que isso me irrite, de forma alguma. O que me irrita é ter de escrever sobre as melhorias que poderiam ser implantadas no sistema educacional do país, ou ter de ouvir que os cientistas desenvolveram um novo traje espacial que possibilitará a vida na lua sem auxílio de propulsores a jato, ou ainda ter de saber sobre a merda do superaquecimento global e o derretimento das porras das calotas polares. Como o Davi e eu um dia concordamos "quando essa coisa nos atingir de fato, estaremos mortos. Até lá, a gente curte o calorzinho". (E, se for o caso de faltar água, bem... O Rio Amazonas, que eu saiba, ainda permanece em território brasileiro. Se bem que a Ana costumava nadar no Velho Chico, então talvez eu prefira migrar lá pr'os cantos de Minas/Bahia por conta desses fatores meramente sentimentais.)
O problema é que se você não sabe discorrer sobre todas essas coisinhas, vira um "alienado", sem papo. Paralelo de ameba. Por algum motivo, o vivente com maior acesso a uma gama interminável de informação tem que ser capaz de discutir o código penal brasileiro e propor soluções pra todo tipo de pepino, até mesmo para o narcotráfico que, não tão raro assim, ele financia, ao mesmo tempo que se liga em temas decorrentes do cotidiano social, como amizade, respeito etc - pode ser só pra passar na faculdade e encher lorota naquelas redações chatas acerca de tudo aquilo sobre o que tu não quer saber. Bah, esse tipo de coisa me dá nojinho.
E a violência me dá desgosto. u.u' Porque eu penso que, em parte, ela é inerente ao ser humano... ou seria ao idiota?

beat it, michael jackson

sábado, 6 de outubro de 2007

Clothing

Pela primeira vez, em 18 anos e 8 meses, eu sairei determinada a comprar roupas.
Sempre visto o que me dão. Hoje, porém, \o/ vou me dar o que usar.
Incluso uma camiseta branca, porque eu estou louca atrás de alguma camiseta branca decente. Aliás, compro logo duas... Isso me livra de sair por aí à moda pijama.
Entende? Eu tenho que crescer, me habilitar. Fui.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Celular

Quando tu não usa o celular pra muita coisa, ele tem, basicamente, duas funções: ou é bip pra Mãe preocupada, ou é um poderosíssimo campo eletromagnético pra propaganda e engano.
Outro dia, foi assim...
-- Alô?
-- Mãe?!
-- Er... Fala, filho.
-- Mãe, eu sei que não é você.
-- Pô, foi mal, cara. Mas, mesmo assim, tá precisando de alguma coisa?
Túúú, túúú, túúú...

-- Alô?
-- Oi, Andrea. Aqui é da Companhia seiláquenome.
-- Er... Sim?
-- Você está trabalhando atualmente?
-- Bom, eu tô cumprindo aviso.
-- E daqui quantos dias você estará disponível (atente à palavra; não é estranho como isto soa?)?
-- Daqui quinze dias.
-- Então, estamos entrando em contato por causa de uma vaga de emprego.
-- Opa, legal.
-- Você já ouviu falar/conhece a Companhia seiláquenome?
-- Nope.
-- Blá, blá, blá, blá, blá. E estamos precisando de alguém seiláoquenãoseimaislá telemarketing.
-- Hm. Basicamente, eu teria que passar o dia atendendo telefone, né?
-- Você - segue uma longa explicação eufemística sobre atendimento e .extração. de dúvidas. Tem interesse?
-- Não.
-- A Companhia seiláquenome agradece a atenção.
Daí eu viro e digo:
-- Meow! Meu celular agora inventou de me arranjar propostas de emprego!
-- Hm. E foi uma boa proposta?
-- Não, mas, pô, foi um começo. Onde é que tu já viu celular avisando que tem vaga aqui e acolá?
-- Verdade, coisa de outro mundo.
Chegando em casa, foi que eu me alembrei... O número do meu celular está distribuído de forma praticamente homogênea pela internet: tá no orkut, tá em sites estranhos, tá, inclusive, num site de currículos. Olha aí o meu milagre... É engraçado isso; toda vez que eu penso que forças sobrenaturais estão agindo sobre o meu cotidiano, percebo que, na real, sou o agente causador delas.
E... e... Bum.

ouvindo the year of the cat, al stewart.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Indo, sem grandes coerências...

Daí domingo foi meu último dia na loja. Saí de lá com cinco listas enormes de filmes pra assistir, a maioria drama ["taí teu perigo, taí teu perigo"], e algum princípio de saudade. Saudade das minhas dancinhas por entre as prateleiras; de Madagascar, Letra & Música e dos filmes do Elvis rodados a esmo pra distração geral; de alguns clientes de gosto mais afiado, que passaram pra categoria de "conhecidos"; saudade da Thaís e, principalmente, do Thiago e as nossas discussões futurísticas sobre a humanidade mais as análises pseudopsiquiátricas envolvendo as mulheres desacompanhadas e os homens à procura de fortes emoções. O tipo de pessoa que vale muito a pena conhecer.
Era bem assim: "que será que o Thiago tem pra me explicar hoje?".

Uma coisa que eu reparei: só depois de retomar algumas coisas é que você percebe o quanto pequenos hábitos podem fazer falta. Por exemplo, eu fui alugar filmes. É, pode parecer ridículo, dado o fato d'eu ter trabalhado numa locadora todo esse tempo, mas fui! E, meeeeeeeow, que delícia é passar uma hora e meia escolhendo aquele montão de capa colorida e sinopse interessante pra levar pra casa! E nessa sexta-feira agora, eu vou sair!!! Sabe há quanto tempo eu não tenho uma sexta à noite?! \o/ Meeeeeeeow, é muito lindo isso! E mais: sábado, eu retomo o Rascunhos; no feriado, se as coisas se arranjarem conforme tô planejando, me mando pra praia! Huá!!! :0D

Esperando no balcão com os filmes, eis que surge ao meu lado a Isa. Então eu me pergunto o que não faz a distância, porque nos cumprimentamos sorrindo e eu fiquei com as boas lembranças da amizade, como se não tivéssemos brigado, como se eu não tivesse ficado com raiva dela, como se ainda houvesse muito o que conversar. (Juro que, se não estivesse com horário, a convidava pra assistir a algum dos meus filmes.) Gosto de esbarrar nas pessoas assim, pelo menos naquelas que não fazem falta, sabe? É bom, parece que tá todo mundo curado das diferenças e daqueles motivos pequeninhos que resultaram naquela briga que explodiu ninguém sabe onde.

Eu fico cá com meus botões pensando que sou uma criatura extrema e cinicamente autosuficiente pra ser alguém que, quando sente falta de algo, sente falta daquilo que vem do outro, ou daquilo que podia ser com o outro. Não sinto falta de sabedoria, beleza, talentos, whatever. Mas sinto falta de atenção, carinho, vozes, às vezes até de brigas - porque o outro é que me motiva a saber, a descobrir, a me enfeitar, a enfeitar tudo o que vejo. Contudo, não me é nada difícil deixar de lado todas essas "necessidades" na falta; eu me pego bancando todos os papéis com facilidade. Tudo fica mais fácil quando é de mim pra mim.
(Meu medo é ver chegar o dia em que eu vou perceber que já me acomodei a essa condição...)

Já tô pensando no próximo trampo. Queria trabalhar em alguma balada, algum barzinho legal. Quem sabe no Barzinho da Esquina, da Vila Madá? Pra curtir mais essa febre noturna que acende São Paulo no escuro...
Vou sentir saudade do Thiago me chamando de Madaga.
^^//

ouvindo fadas, luís melodia.